

Por Lícia Costa
A nova Quaest confirma a mudança que os levantamentos anteriores já anunciavam. Raquel Lyra (PSD) assumiu a liderança de uma eleição que João Campos (PSB) comandou com folga antes. Em abril, o prefeito vencia o segundo turno por 46% a 38%. Agora, a governadora aparece com 45% contra 39%. A diferença entre os dois percorreu 14 pontos em três meses e mudou de lado. Raquel chega à campanha na posição que antes pertencia ao adversário.No primeiro turno, a governadora tem 43%, contra 37% de João.
No segundo, mantém os seis pontos de vantagem. Os resultados acompanham uma mudança igualmente expressiva na avaliação da gestão estadual. O segredo está na aprovação. Este dado é importante para mostrar que ela ainda não está em seu teto.A aprovação de Raquel chegou a 68%, enquanto a desaprovação caiu para 23%. Desde abril, a avaliação positiva subiu de 36% para 45% e a negativa recuou de 28% para 18%. Além disso, 57% dos pernambucanos afirmam que ela merece ser reeleita. O governo passou a impulsionar uma candidatura que, até pouco tempo atrás, tentava sobreviver ao desgaste da própria administração.
Os números também indicam quanto desse apoio ainda pode chegar à urna. Raquel tem 43% das intenções de voto, mas 57% defendem sua reeleição e 68% aprovam o governo. Há eleitores satisfeitos com a gestão que ainda não escolheram a governadora. Para quem já lidera, essa distância oferece possibilidade de crescimento, por isso ela ainda pode crescer bastante. Mas também exige uma campanha capaz de transformar boa avaliação em decisão eleitoral.
Raquel encontra ainda um eleitorado pouco disposto a descartar o que foi feito. Apenas 24% defendem uma mudança total no governo. Outros 32% querem a continuidade do trabalho e 41% preferem alterar somente o que não está bom.
Isso coloca João diante de uma campanha difícil de formular. A maioria não quer o encerramento do ciclo atual, embora parte dela cobre ajustes. O prefeito precisará explicar por que Pernambuco deve trocar de governante para preservar avanços e corrigir falhas que o eleitor atribui à administração de Raquel.A governadora recebe uma autorização condicionada. Os 32% que defendem a continuidade sustentam seu discurso. Os 41% que cobram mudanças impedem qualquer celebração acomodada. A maioria aceita que o trabalho prossiga, mas não deseja uma repetição integral do primeiro mandato.O desafio de João é convencer os "não tão satisfeitos" a se tornarem "insatisfeitos". Missão difícil.
Convicção
João mantém um dado favorável. Entre seus eleitores, 66% consideram o voto definitivo. No grupo de Raquel, são 58%. O prefeito tem hoje uma base menor, mas com menor disposição para mudar.A diferença ajuda a entender o movimento recente. João preservou boa parte dos eleitores que já havia conquistado. Raquel cresceu entre aqueles que ainda avaliavam as opções. Foi essa aproximação tardia que alterou a disputa e a colocou na liderança.
Agora, a governadora precisa consolidar um eleitorado que aderiu durante a recuperação do governo. João enfrenta uma missão anterior: ampliar seus 37%. A fidelidade de seus eleitores reduz perdas, mas não fornece os votos que ainda faltam.
Padrinhos
O desempenho de Raquel se torna mais relevante diante da força de Lula (PT) em Pernambuco. O presidente tem 55% das intenções de voto, seu governo é aprovado por 61%. E 47% dos entrevistados preferem que o próximo governador seja aliado dele. João é apontado por 44% como "o candidato apoiado pelo petista". Ainda assim, perde para a governadora nas intenções de voto.Raquel lidera num estado em que Lula permanece amplamente majoritário sem possuir a preferência presidencial na disputa local definida por ela e sim, até agora, apenas pelo seu adversário. Uma parcela do eleitorado separa as duas escolhas e não exige coerência partidária entre elas. Pode votar em Lula e Raquel sem precisar explicar a combinação a ninguém.
A associação da governadora com Bolsonaro, inclusive, cresceu de 13% para 23% desde abril. Mas o aumento não bloqueou sua ascensão, embora ofereça a João um caminho para tentar nacionalizar a campanha. Raquel precisa conservar a autonomia da eleição estadual e evitar que o confronto nacional reorganize votos que hoje chegam a ela por razões locais.
Em entrevista ao Passando a Limpo, da Rádio Jornal, o cientista político Adriano Oliveira falou sobre isso e lembrou que eleições de governador dificilmente são nacionalizadas. O que parece é que somente se ela permitir isso irá acontecer.
Senado
A política passou semanas discutindo a segunda vaga ao Senado com uma convicção que não chegou ao eleitor. Miguel e Dudu empataram nos mesmos 6%. Dueire surgiu como solução sem ser reconhecido como candidato. Enquanto os partidos calculam quem merece o posto, o público ainda tenta descobrir quem está concorrendo.Marília Arraes (PDT) lidera com índices entre 19% e 21%. Humberto Costa (PT) aparece em seguida, com 12% a 14%. Dependendo do cenário, os indecisos chegam a 24%, e brancos, nulos ou eleitores que não pretendem votar alcançam 25%. Mais da metade admite mudar sua escolha. O Senado é a eleição mais distante para o eleitor. Muito ainda falta acontecer.
Cenário
A Quaest reúne quase tudo o que Raquel poderia desejar antes do início formal da campanha. Ela lidera nos dois turnos, tem um governo aprovado e encontra baixa demanda por ruptura. Permanecem tarefas importantes, sobretudo consolidar os votos recentes e conter a nacionalização da disputa. Nenhuma delas reduz o significado do levantamento. Depois de meses em que a eleição parecia depender dos erros de João Campos, é o ex-prefeito quem agora precisa encontrar uma forma de interromper o avanço da governadora.